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O X que Indaga e Multiplica Jornal do Brasil, fevereiro de 2005 Marisa Flórido César Maio de 2001, Orlândia, Rio de Janeiro. A intensidade da cena não nos permite esquecê-la. Márcia X abria grandes latas de leite condensado com marreta e ponteiro, derramando o conteúdo sobre o corpo. O líquido apagava as silhuetas e as identidades fáceis, os sulcos do rosto. Apagava-lhe o nome prõprio. O fluxo moldava novos contornos, apagava-os, criava outros. Confeitos cobriam a escultura viva. O efeito da performance Pancake é perturbador: o gesto trivial de cozinhar, culturalmente aceito como feminino, embaralhava-se à excepcionalidade do ato criativo masculino, sugerido pelos instrumentos do fazer escultõrico. Leite e sêmen, maternidade e virilidade, afeto e erotismo misturavam-se. O deslizamento do familiar ao estranhamento nos assaltava de pressentimentos. De que se mascaram os interditos contemporâneos? O que constitui os ícones de hoje?
Fundição Progresso, início do século 21. A artista, sentada a uma mesa, corria o dedo sob as linhas escritas de um livro. A imagem era capturada e projetada sobre a parede atrás dela. Víamos ali as frases de um conto infantil, a mão guiando a leitura. Mas o que a artista recitava era um trecho do Manifesto Comunista de Marx. O insõlito da cena, as descontinuidades entre o que se via e o que se ouvia, não se limitavam, contudo, a denunciar a insubmissão do fluxo da vida ao controle dos discursos lineares. Tampouco se restringia a comparar a verdade da Histõria a uma fábula infantil, ainda que ambas tenham sua moral no fim do texto. O fracasso na construção de nosso futuro comum nos impunha, antes, alguns dos enfrentamentos que ancoraram a prática artística de Márcia X: a introdução de um elemento que questionasse os mitos e as ideologias, a padronização dos comportamentos, a constituição dos poderes e privilégios. Um X que provocasse abalo na hierarquia do poder, estranheza no senso comum, enigma na banalidade do mundo.
A esperança revolucionária das utopias sociais não era nela substituída pela melancolia, mas por um humor irreverente, uma das armas preferidas de Marcel Duchamp: ''o homem sério é perigoso...'' Sob o legado do Dada ao Fluxus, tanto as ações em parceria com Alex Hamburguer como os trabalhos recentes investiam-se da força questionadora das vanguardas, mas sem dogmatismos teleolõgicos ou a mera preocupação de transpor e ampliar as fronteiras tradicionais da arte, prõpria dos anos 60 e 70. A potência transgressora da arte realizava-se nas circunstâncias que o agora oferece, criando e multiplicando as rotas singulares que escapassem aos determinismos e às intolerâncias tirânicas. Para testar a resistência crítica da arte em um mundo cada vez mais globalizado, Márcia criava situações perturbadoras. Se criticava o circuito de arte, seus ícones e mitos de ocasião, também buscava alternativas para além dos limites institucionais. Márcia nos deixa a sabedoria de explorar as pequenas fendas. Olhar mais uma vez e deparar-se com o X que tanto interroga como multiplica as possibilidades. |
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