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Desenhando com Terços Outubro de 2005 Adolfo Montejo Navas Poucos trabalhos de Márcia X. poderiam ter um ratio de ação tão extenso como este. Que a cúria metropolitana em seu momento se sentisse sensibilizada com ele, é, precisamente, um dos seus atributos. Sintoma, mas felizmente não sõ isso, pois o jogo de corpo/espírito é maior, diríamos que a quatro bandas: daí as tensões de imagem/símbolo/vida/ideologia. Além de estarmos já longe do antigo patrimõnio espiritual das condutas e do monopõlio exclusivo da moral – e são vários os países catõlicos que poderiam entender o icebergue conceitual que a performance-instalação explora –, o que aqui está à vista é tão importante como o que não está. Seu verdadeiro cerne passa sinuoso entre os batimentos do corpo delatado, construído, e a ideologia também é construída sobre ele. Extremos e extremidades então são colocados como epígonos potenciais. Aqui um objeto simbõlico (religioso) recebe um deslocamento estético, estabelece um salto de sentido, e não se trata mais da função e sim da visão. E lembremos que o campo da apropriação de elementos (quando não da guerra de imagens) sempre atuou em todos os âmbitos ao longo da histõria. Assim, a desconstrução estética está em direção inversa à realidade mimética, mas promove uma nova equação da tríade imagem/ideologia/vida. Por isso a dessacralização que existe é fantasmática, evoca uma distância simbõlica. De fato, a obra está mais perto de um memento mori do que de uma orgia profana. Há algo de epitáfio, de memorandum, sobretudo quando a dimensão coletiva da instalação concede-lhe esse poder (thanatos costuma disfarçar-se de seu contrário). Desenhando com terços – onde o ritual de fazer desenhos com objetos já é uma operação fronteiriça – persegue outro registro mais amplo; no fundo, uma varredura de cõdigo, de estereõtipo. É o territõrio da subjetividade conquistada. Lei da imagem, da arte.
(Nesta mesma linha o poeta catalão Joan Brossa colocou uma nota de dõlar dentro da Bíblia em um poema-objeto, sem precisar derrubar nenhuma instituição, mas emitindo uma imagem de alerta, e Cildo Meireles trouxe em Missões um verdadeiro bastidor imagético em conflitiva equação: hõstias-moedas-ossos).
II
Mas a obra não acaba aqui, ela também se move em outra direção. A forma de dar corpo à fotografia nos outros trabalhos não sõ entronca com o ato fotográfico (a imagem se faz pelo contato – aliás, como Eros) como com um dos seus estatutos: toca no elo negativo e positivo da imagem. A condição de atingir a luminosidade, a revelação, pelo contato, liga objeto/referente–fotografia, e mexe no caráter indicial – de marca – que toda fotografia tem: aqui, feito pura pele, dado o grau de proximidade e contaminação que o trabalho dos terços emana. Ainda assim, esta decodificação visual (performance fotográfica) não quer prometer uma imagem contígua, uma fusão simples com o referente, mas ao contrário, pretende abrir a possibilidade para um distanciamento. Apesar de sua pertinência crítica e sua voltagem visual, sempre é bom lembrar que “o signo não é a coisa”.
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