Performance no Free Zone – Síntese no Circo Multimídia Texto para o catálogo do Free Zone, 2001 Luisa Duarte O campo das artes plásticas testemunha as modernas transgressões de fronteiras tradicionais da cultura. Depois das ricas e inteligentes manobras executadas por Marcel Duchamp no início do século XX, todas as convenções parecem superadas. Desde os Dadaístas, passando por referências importantes como Marina Abramovic e Chris Burden nos anos 1960 e 70, até este início de terceiro milênio, a performance veio sublinhando diferenças no universo da arte. Invadindo a área das artes cênicas, o artista performático não reduz o elemento essencial do seu trabalho à ação. Ele solicita uma encenação, onde a presença do público é fundamental. A performance como que contrai o espaço entre sujeito e obra. A obra reside e se esgota agora literalmente na ação do sujeito diante do público.
Este poder de concisão da performance acaba por se opor a um universo contemporâneo caracterizado pelo excesso de imagens, onde as categorias de espaço e tempo são relativizadas e as relações humanas passam a apresentar a possibilidade de jamais se consumarem num corpo-a-corpo, passando sempre por uma mediação tecnolõgica que serve de ponte para que os homens se comuniquem. “Pancake” é a potência da síntese no meio deste circo multimídia. A humanização no lugar dos bytes. Ela, presente, em pé, dedica-se a derramar sobre si mais de 20 quilos de Leite Moça, que ao final são cobertos com uma enorme quantidade de confeitos coloridos sem gosto de nada.
“Pancake” traz à luz uma experiência que, além de generosa visualmente, enfim nos leva a formular perguntas: que loucura acontece entre o primeiro grama de Leite Moça e os 22 quilos e meio cobertos por confeitos? Que perseguição desenfreada é esta pelo supérfluo, que é inimigo do necessário, tão típica do universo feminino? Que maquiagem é esta que acaba por deformar? Que busca por prazer é esta, que acaba por levar ao seu oposto? A mesma ação que a torna cada vez mais doce, pesa e sufoca. Que excessos, às vezes tão necessários, são estes? “Sempre é pouco quando não demais?”1
Mulheres devem embelezar o mundo. Podem ser musas. E também histéricas. Beleza e histerismo são palavras que nos remetem ao universo feminino. Rituais, hábitos, estados, consumos, o contínuo cultivo de vícios e virtudes.
“Pancake” nos conta a histõria dos excessos com uma simplicidade e objetividade admiráveis.
_______________________________
Luisa Duarte é pesquisadora de artes plásticas e estudante de jornalismo da PUC-RJ.
1 “Pouco”, Arnaldo Antunes, do CD Nome, 1993. |