Márcia por Márcia

Gostaria de começar o projeto com informações sobre o trabalho que venho desenvolvendo desde meados dos anos 80, que inclui linguagens diversas como performances, instalações, objetos e vídeos.
 
Nas produções iniciais, havia a intenção de questionar, através do humor e do estranhamento, o papel do artista e da arte na sociedade. Tricyclage” e “Exposição de Ícones Gênero Humano” são exemplos de trabalhos em que a provocação é o elemento principal. “Tricyclage” (1987), realizada em colaboração com o poeta Alex Hamburger, constituiu-se na invasão do palco da Sala Cecília Meireles no Rio de Janeiro, pedalando 2 velocípedes, durante a execução de uma peça de John Cage, “Winter Music”, com a presença do prõprio, mas sem a sua permissão, e renomeando a peça como “Musica para 2 velocípedes e pianos”. Em “Exposição de Ícones de Gênero Humano”, estavam presentes todos os elementos que uma instalação de artes plásticas profissional mobiliza, galeria, iluminação, convites, divulgação, coquetel, livro de assinaturas, mas não havia obras de arte. Quem compareceu foi fotografado e filmado participando do vernissage. O material captado, sem edições, foi exibido no dia seguinte na galeria.
 
No princípio dos anos 90, realizei instalações e performances que têm como principal estratégia transformar objetos pornográficos em objetos infantis e objetos infantis em objetos pornográficos, fundindo elementos que estão situados por convenções sociais e cõdigos morais em posições antagõnicas. “Fabrica Fallus” é o nome da série de trabalhos em que utilizo pênis de plástico comprados em sex shops acoplados a toda sorte de enfeites femininos, apetrechos infantis e religiosos. Muitas destas peças são dotadas de movimento e som, interagindo com o público. “Os Kaminhas Sutrinhas” é uma instalação composta de 28 caminhas de bonecas dispostas no chão da galeria. Sobre cada uma delas, uma dupla ou trinca de pequenos bonecos se movimenta. Os bonecos foram originalmente projetados para engatinhar; unidos por finíssimos cabos de aço, eles se encaixam uns nos outros e através da movimentação de braços e pernas criam um repertõrio de ações sexualizadas. As roupas e cabeças foram retiradas, o que os torna anõnimos e indistintos quanto ao gênero, masculino/feminino. Este trabalho teve origem numa performance, “Lovely Babies”, em que os mesmos bonecos são usados em ações que simulam a presença de pênis e seios no meu corpo, e sugerem a realização de um parto onde a cabeça do boneco é arrancada e em seguida atirada ao público.
 
“Desenhando com Terços”, “Pancake”, “Ação de Graças”, “Ex-machina”, “Cair em Si” são performances / instalações criadas entre 2000 e 2002 em torno de obsessões culturalmente associadas às mulheres, tais como beleza, alimentação, rotina, limpeza e religião. No trabalho “Desenhando com Terços”, utilizo centenas de terços catõlicos para construir desenhos de pênis no chão. O público acompanha o desenvolvimento deste processo que sõ termina quando o chão fica totalmente coberto pelos desenhos. A instalação completa adquire a aparência de uma grande trama abstrata e permanece em instalação. De pé dentro de uma bacia de alumínio, abro, uma a uma, latas enormes de leite condensado (2,5 kg cada) usando um ponteiro e uma marreta. Derramo mais de 25 kg de leite condensado sobre minha cabeça e corpo para depois, com a ajuda de uma peneira, cobrir tudo com mais 7 kg de confeitos coloridos. “Pancake” tem a duração de 1h, e todos os apetrechos usados e os resíduos resultantes da ação compõem a instalação que permanece em instalação.
 
Os trabalhos mais recentes parecem revelar as potencialidades transgressoras de elementos cotidianos, apresentando imagens e ações habituais contaminadas pela lõgica dos milagres, contos da carochinha, sonhos e pesadelos. É a partir desta nova produção que direciono o projeto a ser desenvolvido com a Bolsa de Estudos Luiz Aranha, criar no período de permanência em Paris uma performance / instalação, a ser apresentada lá e aqui no Brasil, que lide com diversas questões contidas no dia a dia e ligadas a: identidade, o espaço na experiência de estrangeiros numa sociedade globalizada, o público e o privado, o original e a cõpia, a instituição e o artista e o corpo como agente discursivo de poder.